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Marcos Ernesto Rogatto
marcos@vistamultimidia.com.br

Jornalista e Mestre em Multimeios pela Unicamp. Trabalhou na TV Manchete, Revista Veja e TV Globo São Paulo. Foi diretor de Comunicação da Prefeitura de Campinas e colaborador da Gazeta Mercantil. Há 25 anos trabalha com vídeos e multimídias corporativas. Atualmente é Diretor da produtora Vista Multimídia e participa do Grupo de Estudos de Novas Narrativas/GENN.

Página infeliz da nossa história

              Publicado em 26/04/2016

A frase é da música Vai Passar, de Chico Buarque de Holanda. Composta em 1984, reportava os percalços do Brasil Colônia. Este título também remete aos dias de hoje e traduz o inferno astral que culminou com o processo de impeachment da presidente Dilma. Um outro período pouco feliz para o país, no mesmo mês em que se comemora os 516 anos da chegada das caravelas portuguesas por essas terras.

Dados lamentáveis não faltam: em 2015 foram demitidos 1.5 milhão de trabalhadores. A previsão é que o mesmo ocorra nesse ano. A indústria tem o pior desempenho das últimas décadas. Só no Estado de SP 4,5 mil fecharam as portas no ano passado. Os pontos comerciais sobram, em todas as cidades, sem locatários interessados. Muitos abandonam o plano de saúde e a escola particular na maior evasão da nossa história. Outros perdem seus carros para a financeira, lotando os pátios de leilões. Chegam a devolver os imóveis por não conseguirem pagar o financiamento. O distrato é recorde nas construtoras, com 41 imóveis devolvidos para cada 100 vendidos no ano passado. O endividamento e a insolvência rondam as famílias brasileiras.

No Índice de Gini, que mede a distribuição da renda, Zero representa a maior igualdade, enquanto 100 indica total desigualdade. Entre 2011 e 2015 o índice do Brasil era 52,9. Para comparar com os vizinhos - cujos governantes não se vendem como os salvadores da pátria - a Argentina tem 42,3 o Uruguai 41,9 e o Paraguai 48,3: todos melhores que o Brasil. Os 10% da população que possuem a maior renda familiar, ainda concentram 41,7% da renda per capita total do país. Por outro lado, o país perde mais de R$ 80 bilhões por ano com a corrupção e joga fora o tão esperado bônus demográfico.

Para muitos brasileiros a Operação Lava Jato é o ponto de virada nessa história. Deflagrada em março de 2014, prendeu 116 políticos, vários donos de grandes empreiteiras, doleiros, empresários e ex-diretores da Petrobras envolvidos em negociatas com dinheiro público.

Ao todo, foram 35 denúncias contra 173 pessoas. Somadas, as penas aplicadas nas sentenças chegam a 680 anos, oito meses e 25 dias. Em dois anos foram devolvidos R$ 2,9 bilhões do dinheiro desviado da Petrobrás. Isso equivale a mais de 130 vezes da última Mega Sena acumulada (no final de março ela que pagou pouco mais de R$ 22 milhões ao seu ganhador).

Além dos números superlativos e do apoio popular, as investigações apontam que é hora de mudar não só os políticos, mas a maneira como se faz negócios no Brasil. Não há corrupto sem corruptor e os acontecimentos mostram desvios nos padrões éticos de gigantes do empresariado brasileiro.

Nos discursos dessas empresas temos a promessa de bom relacionamento com todos os públicos, o estabelecimento de metas que impulsionem o desenvolvimento sustentável da sociedade, a preservação dos recursos ambientais e culturais, o respeitando à diversidade, transparência, redução das desigualdades e vários outros aspectos que conferem benevolência.

Porém a realidade é outra e as práticas de compliance ainda engatinham no país, segundo estudos da Deloitte, com 124 grandes companhias. O treinamento contra a corrupção não é feito em 48% das empresas. Mas, não basta ter o setor antifraude para mostrar boa imagem ao mercado. Como escreveu Mario Sérgio Cortella, “a ética não pode ser cosmética”. Tem que fazer valer a seriedade. Afinal, entre as grandes empreiteiras citadas na Lava Jato ao menos nove delas possuem sistemas de compliance. A natureza epidêmica da corrupção só poderá acabar ao se reverem as relações público-privadas.

A comunicação - que tão bem cuida da reputação e dos ativos intangíveis - deve ser mais ativa nesses processos. No plano dos negócios poderia ajudar a criar mecanismos que periodicamente detectem, avaliem e monitorem riscos de corrupção. Não basta propagar o discurso do triple bottom line e monitorar as redes sociais. Os profissionais de comunicação precisam ajudar a implantar a ética como prática diária.

No plano existencial ou, mesmo espiritual, seria bom que os CEOs brasileiros pensassem em legado, na marca que deixarão para o mundo e como suas histórias serão contadas pelas futuras gerações.

Em março desse ano, na Época Negócios, Elie Horn, abordou o tema. Falou da obrigação moral de empresários e políticos com a sociedade. Horn, bem mais do que efetivamente manter coerência entre discurso e prática, há 15 anos doou 60% do patrimônio para obras de filantropia. O conceito de poupar para a eternidade é o belo legado desse empresário dono da Cyrela.

Para encerrar com a esperança de que esse inferno astral brasileiro vire mesmo a página da nossa história, lembrei da música Notícias do Brasil. Nela Milton Nascimento afirmava que “Tem gente boa espalhada por esse Brasil, que vai fazer desse lugar um bom país”.

 

 

 


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