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Mônica Alvarenga
monica@monicaalvarenga.com

Coach e consultora em Comunicação e Relacionamentos Organizacionais, graduou-se em Comunicação Social pela UFRJ, Letras (FEUC), especializando-se em Marketing (FGV), Comunicação Corporativa (Syracuse University, NY) e Mídias na Educação (UFRRJ). É diretora da Múltipla Comunicação. Escreve para portais e blogs sobre relacionamento e comunicação. 

www.monicaalvarenga.com

Espaços vazios e a comunicação

              Publicado em 21/12/2015

Tive uma experiência interessante contratando os serviços de uma organizadora pessoal. Levamos juntas dois dias para organizar meu quarto e o closet. O resultado foi fantástico e me apresentou a vários espaços vazios. Eu, uma colecionadora de coisinhas, jornalista que não vive sem livros e papéis (muitos), aprendi apreciar o vazio. No closet, agora, há espaço para minha imaginação, para novas combinações de roupas antigas, para avaliação do que realmente merece permanecer nesse canto da casa. Tenho mantido o closet assim e pensado na importância desses “espaços vazios” num mundo que não para, nem silencia e, por isso, teme o esvaziar.

A comunicação anda ruidosa, em todos os âmbitos – inclusive no pessoal. Há muita fala, muito ruído, muita informação, muita pressa e pouco tempo para silenciar. Estudos com pensadores e líderes em diferentes segmentos apontam que os mais bem sucedidos mantêm alguma prática cotidiana que lhes facilita a conexão com a sua essência ou com o seu potencial criativo. Os métodos escolhidos são tão variados quanto as características pessoais de cada um, mas incluem meditação, exercícios respiratórios, ioga, algumas modalidades de exercícios físicos, entre outros.

Mas a disciplina para realização dessas práticas regularmente ainda é rara entre nós, ocidentais. Costumo propor, em palestras e workshops, um breve exercício de quietude e há sempre pessoas que se sentem incomodadas. Você pode fazer seu próprio teste entrando nesse site http://thequietplaceproject.com/. O objetivo é proporcionar aos internautas a experiência de períodos de 30 a 90 segundos de silêncio. Incrível como em tão pouco tempo a mente parece querer fugir para os e-mails a serem respondidos, as redes sociais, um artigo não lido, o telefonema pendente. Menos de dois minutos podem parecer uma eternidade se a mente estiver cheia: só o silêncio intencional é capaz de esvaziá-la.

Precisamos mais do que nunca de espaço para novas combinações. Esvaziar e organizar o meu armário teve grande impacto porque me fez ver o quanto posso economizar em roupas. Crio novas composições porque consigo visualizar com clareza tudo o que está a minha disposição. Para nós, comunicadores, não é diferente. Para a promoção de trocas profícuas nas organizações das quais participamos, é fundamental que saibamos esvaziar nossas mentes. Mentes cheias não dialogam e não promovem arranjos inovadores.

O físico David Bohm, que estudou e mapeou o processo de diálogo apresentando-o como uma maneira de transformar a sociedade, perto de sua morte, em 1992, declarou que as dificuldades e insucessos experimentados no exercício do diálogo poderiam estar relacionados à falta de desenvolvimento pessoal: “Eu acho que as pessoas não estão trabalhando o suficiente consigo mesmas”. O que pode parecer um paradoxo, pois diálogo pressupõe colaboração para, no entender de Bohm, acessar a inteligência coletiva. Nessa reflexão, posterior à publicação de seus trabalhos, ele alerta sobre a condição individual dos participantes como um fator relevante para o sucesso dos processos dialógicos.

Lee Nichols, físico e colaborador de Bohn, escreveu um artigo intitulado “Plenitude recuperada” onde revê os estudos de Bohm acerca do diálogo e afirma que todos os trabalhos conduzidos por Bohm que se transformaram em livros e artigos sobre o assunto aconteceram em seminários em que havia uma preparação prévia para que os participantes acessassem um campo profundo de atenção. O exercício do diálogo, então, era sempre precedido por esse “trabalho de desenvolvimento individual” que se traduzia em práticas contemplativas ou de meditação. Assim, esvaziando a mente, propiciando aos participantes momentos de retiro e conexão com a sua essência, criava-se um campo em que todos pudessem atuar além da sua visão de mundo.

Segundo Lee, a mente silenciosa possibilita o acesso a uma nova forma de compreensão, por ele chamada de conhecimento original. Outro cientista, Otto Scharmer, fundador do Presencing Institute, denomina esse efeito de conexão com a Fonte. No entanto, os resultados que podem ser alcançados a partir dessas práticas independem da nomenclatura e muito menos da prática escolhida para silenciar. O fato é que este vazio é necessário para acesso à fonte criativa, a uma inteligência única e superior, capaz de transformar o caos em que vivemos hoje.

Importante ressaltar que este espaço vazio ou silencioso ao qual me refiro não é o da ausência e do isolamento. É diferente daquele momento em que fechamos simbolicamente os ouvidos para não ouvir o que difere de nossas crenças. Esse é um espaço de isolamento e patologia, em que novas combinações são aniquiladas antes mesmo da centelha de sua criação. Neste tipo de silêncio, a mente mantém-se ocupada e vigilante para manter padrões de pensamento, julgamentos e outros artifícios que impedem a abertura para o novo.

Abertura, aliás, é um ganho precioso trazido pelo aprendizado dos espaços mentais “vazios”. E esse aprendizado requer prática. Mesmo as mentes mais “falantes” podem aprender a silenciar. O importante é o exercício diário, que pode começar com momentos como esses propostos pelo http://thequietplaceproject.com/.

Leituras recomendadas:

Bohm, David. Diálogo – Comunicação e Redes de Convivência. São Paulo: Editora Palas Athena, 2005.

Bohm, David. Unfolding Meaning: a weekend of dialogue with David Bohm. ed Donald Factor. Gloucestershire: Foundation House. 1985.

LEE, Nichols. Wholeness regained, in Dialogue as a Means of Collective Communication. US: Springer, 2005.

 


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