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COLUNAS


Cristina Panella
cristina@cristinapanella.com.br

Diretora de Cristina Panella Planejamento e Pesquisa. Cristina Panella é Doutora em Sociologia com ênfase em Comunicação pela E.H.E.S.S. – Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, Mestre em Antropologia Social e Cultural pela Sorbonne (Université René Descartes – Paris V) e Mestre em Formação à Pesquisa em Ciências Sociais, também pela E.H.E.S.S. Também é professora convidada da ECA – USP e tem experiência nacional e internacional na área de consultoria de comunicação e marketing, pesquisa de imagem e reputação, mercado e opinião. Dedica-se, atualmente, ao desenvolvimento de abordagens e metodologias expressas em indicadores e índices que enriqueçam o planejamento, a pesquisa e a comunicação.

Hegemonia ou Consenso

              Publicado em 13/04/2016

O atual momento brasileiro torna difícil o trabalho do colunista especializado. Como falar de qualquer coisa que não seja o que nos preocupa e ocupa a todos? No entanto, quando se fala de política, fala-se forçosamente de gente. E mais: de gente “em relação com”. Algo bastante semelhante ao que vivemos na comunicação.

Apoiada em minha formação inicial, andei divagando nas últimas semanas nos diferentes conceitos com que me defrontei no estudo da sociologia e, particularmente da ciência política. Lembrei-me, então, de um artigo que li no Estadão, na década de 90, em rápida passagem pelo Brasil. Assinado pelo Prof. Oliveiros S. Ferreira, o raciocínio e conceitos ali expostos muito me marcaram e têm voltado à minha mente nos últimos meses. Nele, o grande mestre discorria sobre a diferença entre os conceitos de hegemonia e consenso trazendo à luz um fato que, em minha compreensão da época, pareceu-me revelador: as batalhas políticas nacionais não se davam pela busca de um consenso, mas sim, podiam ser explicadas pela prevalência de um grupo hegemônico.

Do ponto de vista da história política, hegemonia foi definida, ainda na Grécia antiga, como a supremacia de um povo sobre outros (seja por meio da introdução de sua cultura ou por meios militares). Na política moderna, o conceito foi (re)formulado por Antonio Gramsci, em seus Cadernos do Cárcere, ao caracterizá-la como dominação ideológica de uma classe social sobre outra, particularmente da burguesia sobre o proletariado e outras classes de trabalhadores.

Trata-se de mudança significativa no lugar e valor acordados ao vocábulo “consenso”. Para Gramsci, as classes hegemônicas buscavam o consenso, sempre precário e transitório, sobrevindo, aos dissensos das várias vozes sociais. Portanto nada de “harmonia” ou “paz duradoura” no consenso, somente uma trégua nas lutas.

Deixar de lado o conceito falsamente aglutinador do “consenso” parece-me vital para a compreensão – e principalmente superação – da realidade nacional atual. A noção de hegemonia permite explicar a loucura do muro que se construiu em frente ao Congresso como a expressão simbólica mais forte do dissenso social, e falta de liderança.

Pensar a partir dessa perspectiva nos faz deixar de lado a ingênua leitura do momento social como a de uma disputa entre torcidas de futebol, cujo resultado do jogo, independentemente dos craques que o joguem, será, como jogo, sempre aleatório. E o jogo político, como sabemos, nada tem de aleatório.

Em próximo artigo desdobraremos o raciocínio para a Comunicação Corporativa.


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