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Francisco Viana
viana@hermescomunicacao.com.br

Jornalista, Doutor em Filosofia Política (PUC-SP) e consultor de empresas.

 

Samarco: Melhor tarde do que nunca

              Publicado em 17/02/2016

Nas crises, o importante é reagir de imediato. Ocupar espaços. Incentivar uma percepção diferente das coisas. Criar uma narrativa própria que seja alicerçada em fatos, não em ficções. Não ficar inerte. É o que a Mineradora Samarco está fazendo agora com comercial de TV em que procura explicar como reagiu à tragédia do rompimento de uma barragem em Mariana, Minas Gerais, com o balanço horripilante de 19 mortos, pessoas que continuam desaparecidas, feridos, além de inúmeros desabrigados.

Politicamente, desde que o episódio se impôs, a Samarco só tem acumulado críticas que rompem as fronteiras do Brasil e levam a tragédia de impactos ambientais ainda não de todo conhecidos. O comercial, veiculado em horário nobre na TV, é uma resposta da empresa que não deve ser minimizada ou ignorada. Por múltiplas razões. Primeiro, é uma peça primorosa que mostra o outro lado da realidade. Chama atenção, fato raro nas comunicações atuais. É humanista, também um fato raro. Chega com atraso, mas é como diz o ditado popular: antes tarde do que nunca.

Protagonizado por funcionários comuns – não por gente da cúpula – pessoas que trabalham na empresa há longos anos, revela o outro lado da crise. Não por acaso a peça é denominada “É sempre bom olhar para todos os lados”. Um título criativo, mas real. Um título que é uma lição de jornalismo objetivo: conferir as múltiplas versões. Não partir do princípio de que existe apenas uma versão. Ou uma versão hegemônica. Todas as versões são preponderantes. Vale para jornalistas, vale para comunicadores.

O vídeo traz a cena um novo paradigma narrativo. Como os funcionários reagiram diante do acidente? Teria sido a empresa algoz e vítima do processo simultaneamente? “É um momento difícil aquele que a gente está passando, mas a gente vai vencer”, diz um funcionário. “Uma coisa muito séria o que aconteceu, a barragem se rompeu”, diz outro funcionário. Um terceiro complementa: “Foi uma comoção total”. Neste ritmo, a empresa, desconhecida do grande público, troca o papel de vilã pelo papel de protagonista de uma crise de grandes proporções. Inverte o jogo, se posiciona.

Esse movimento encontra-se em sintonia com os novos tempos democráticos. É imperativo que aqueles que erram, assumam os seus erros. E por que não? Não teria sido muito mais fácil se o presidente da Câmara dos Deputados, no intricado caso das contas na Suíça, que podem lhe custar o mandato, não tivesse dito, desde o primeiro momento em que foi acusado de mentir sobre seu patrimônio, "errei", e pedido desculpas? Usado toda a sua energia não para adiar julgamentos, mas enfrentá-los? O movimento positivo, em lugar do movimento negativo?

Não é aconselhável, por exemplo, fazer como tem feito a construtora OAS. Envolvida seriamente na Operação Lava Jato da Polícia Federal, só tem feito apanhar. Apanha quase que diariamente no Jornal Nacional da TV Globo, mas não reage. A OAS é apenas um exemplo emblemático. A rotina, hoje no Brasil, tem sido essa: as organizações e líderes políticos se escondem atrás dos advogados e não assumem suas culpas, não reagem. O papel da comunicação é diferente: é ser o advogado do cliente em crise junto à opinião pública. Se existe a defesa formal junto aos tribunais formais, por que não fazer também a defesa junto à opinião pública?

A Samarco, nesse cenário, cria um novo paradigma. O case que começa a escrever pode servir de inspiração para comunicadores. A solução do filme publicitário é original: controla, no bom sentido, a mensagem, e mostra pessoas falando com pessoas. Evidentemente, vai suscitar críticas de toda ordem, a começar pela que circula nas mídias sociais: por que não gastar o dinheiro da campanha no socorro às vítimas? São coisas diferentes. Com a campanha, a mineradora está cuidando de cuidar da sua reputação, imagem e identidade.

Inova no momento brasileiro. Rompe a inércia. Rompe com a posição contemplativa que Aristóteles tanto condenou e que é, na essência, imobilizadora. Comunicação é isso: ação. Ação prática. É como um arco que dispara uma flecha. A ação cria novas ações, abre janelas e portas para novos olhares. A crítica faz parte do processo. O primeiro elemento da democracia é esse: o conflito. Sem conflito não há democracia e, consequentemente, não há comunicação livre. O importante é se posicionar, ter a ação – a ação estratégica, não cega – como referência. Ver o outro lado é jogar luzes sobre as sombras.


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